Os pobres, o livre mercado,
e a moralidade deste arranjo ...RD
Por Leonard Read
Se uma determinada atividade
econômica sempre foi socializada, praticamente todas as pessoas concluem que é
assim que tem de ser e que não poderia ser de outra maneira.
Com
efeito, à primeira vista, imaginar como o livre mercado faria funcionar um
setor até então estatizado é difícil. Décadas de doutrinação estatista
nas escolas (públicas e privadas) geraram essa incapacidade de raciocínio.
Murray Rothbard certa vez comentou que se o governo fosse o único
fabricante de sapatos, a maioria das pessoas seria incapaz de imaginar como o
mercado poderia ser capaz de produzi-los. Disse ele:
"Se
o governo, e somente o governo, tivesse o monopólio da fabricação de sapatos e
fosse o dono de todas as revendedoras, como será que a maioria das pessoas iria
reagir a quem advogasse que o governo saísse do setor de calçados e o abrisse
para empresas privadas? Sem dúvida nenhuma as pessoas iriam bradar: "Como
assim? Você não quer que as pessoas, e principalmente os pobres, usem sapatos!
E quem iria fornecer sapatos ao povo se o governo saísse do
setor? Quais pessoas? Quantas lojas de sapato haveria em cada cidade?
Em cada município? Como isso seria definido? Como as empresas de
sapato seriam financiadas? Quantas marcas existiriam? Qual material
elas iriam usar? Quanto tempo os sapatos durariam? Qual seria o arranjo
de preços? Não seria necessário haver regulamentação da indústria de
calçados para garantir que o produto seja confiável? E quem iria fornecer
sapatos aos pobres? E se a pessoa não tiver o dinheiro necessário para comprar
um par?"
Troque
a expressão "fabricação de sapatos" por qualquer outra e o raciocínio
continua idêntico. Sem uma educação socializada, como os pobres
conseguiriam pagar por seus estudos? Se os Correios não fossem estatais,
como as pessoas que moram naqueles rincões mais afastados receberiam suas
cartas? Sem a Previdência Social estatal e compulsória, os idosos
morreriam na miséria! Se o sistema elétrico não estivesse sob o controle
do estado, milhares de famílias estariam hoje às escuras! Se a extração
de Petróleo não fosse de competência do estado, não haveria gasolina e diesel
nas bombas!
Pavorosamente,
quando se aceita a "necessidade da socialização", a ideia do
absolutismo estatal passa a ser vista com naturalidade. Afinal, se o
estado é visto como essencial em várias áreas, por que ele deixaria de ser
essencial em outras?
Para
entender essa confusão mental não é necessário muito esforço.
Tão
logo uma atividade foi socializada, torna-se impossível demonstrar, por meio de
exemplos práticos, como os indivíduos agindo em um mercado livre e irrestrito
poderiam efetuar esta mesma atividade de maneira mais eficiente, mais abundante
e mais barata. Por exemplo, como seria possível comparar os Correios
estatais a um Correio privado quando a existência deste último é proibida por
decreto estatal? Como explicar que o mercado de telefonia seria melhor
caso a entrada de concorrência estrangeira fosse liberada, quando sempre
tivemos o estado regulando o setor e especificando quem pode e quem não pode
entrar?
É
como tentar explicar para um povo que sempre viveu na escuridão como as coisas
seriam caso houvesse luz. A única coisa que você pode fazer é recorrer a
construções imaginárias.
Para
ilustrar esse dilema: durante as últimas décadas, homens e mulheres praticando
trocas livres e voluntárias (isso se chama livre mercado) descobriram como
fazer a entrega da voz humana ao redor do globo em bem menos de um segundo;
descobriram como transmitir um evento, como uma partida de futebol ou uma
corrida de automóveis, e exibi-lo ao vivo e a cores na casa de qualquer pessoa
em qualquer ponto da terra; descobriram como transportar mais 300 passageiros
de um continente a outro em questão de horas; descobriram como transportar gás
de uma mina remota ao aconchegante lar de alguém em outra cidade a preços
inacreditavelmente baixos e sem subsídio; descobriram como entregar vários
barris de petróleo do Golfo Pérsico ao oeste americano — meia volta ao mundo —
por menos do que o governo cobra para entregar uma carta de 50 gramas ao outro
lado da rua!
No
entanto, e ainda assim, esses e tantos outros fenômenos rotineiros que o livre
mercado nos proporciona ainda não são capazes de convencer a maioria das
pessoas de que "os Correios" poderiam ficar a cargo da livre
concorrência sem que isso causasse sofrimento aos usuários.
Agora,
imagine este outro cenário: suponha que o governo federal, desde seu
surgimento, tenha decretado uma lei ordenando que todos os meninos e meninas,
desde o nascimento até a maioridade, recebam sapatos e meias
"gratuitamente" do governo federal. Imagine que essa prática de
receber "sapatos e meias gratuitamente" estivesse em prática desde o
descobrimento do país. Por fim, imagine que um de nossos contemporâneos —
alguém que acredite nas maravilhas que podem ser alcançadas quando as pessoas
são livres para empreender — dissesse: "Não creio que dar meias e sapatos
para as crianças deveria ser uma responsabilidade do governo. Isso
deveria ser uma responsabilidade das famílias. Tal atividade jamais
deveria ter sido socializada. Ela seria muito mais adequadamente efetuada
pelo livre mercado".
Quais
seriam as reações a essa declaração? Baseando-se em tudo o que ouvimos
tão logo uma atividade é estatizada — mesmo que apenas por um curto período de
tempo —, a resposta-padrão a essa desestatização seria algo assim: "Ah,
mas aí você traria sofrimento para as crianças pobres, que ficariam
completamente descalças!"
No
entanto, neste exemplo, como se trata de uma atividade que ainda não foi
estatizada, somos capazes de mostrar que as crianças pobres estão mais bem
calçadas naqueles países em que sapatos e meias são de responsabilidade da
família do que naqueles países em que sapatos e meias são responsabilidade do
governo. Somos capazes de demonstrar que as crianças pobres estão mais
bem calçadas em países que são mais livres do que em países que são menos livres.
Sim,
é verdade que o livre mercado ignora os pobres — só que ele ignora os pobres
justamente porque ele não reconhece os ricos. O livre mercado não é um
"respeitador de pessoas". O livre mercado é simplesmente uma
maneira organizacional de criar bens e serviços por meio da livre
concorrência. Ou seja, trata-se de um arranjo em que a entrada na arena
da produção e da comercialização é livre, não dependendo de autorizações ou
permissões estatais. Trata-se de um arranjo que permite que milhões de
pessoas cooperem e compitam sem que seja necessário exigir autorizações
preliminares de pedigree, nacionalidade, cor, raça, religião ou riqueza.
Livre
mercado significa transações voluntárias; significa uma justiça impessoal na
esfera econômica. Livre mercado não tolera protecionismo, subsídios e
favores especiais concedidos por aqueles que estão no poder. Por isso, o
livre mercado é, em sua essência, contra a coerção, a espoliação, o roubo e
todos os outros métodos anti-mercado criados por governos para privilegiar
alguns poucos poderosos em detrimento de todo o resto. O livre mercado é
o único arranjo que permite que qualquer indivíduo possa concorrer em qualquer
área da economia (mas que não dá garantia nenhuma de sucesso). O livre
mercado, por fim, permite que os mortais ajam moralmente porque eles são livres
para agir moralmente.
Sim,
é necessário admitir que a natureza humana é defeituosa, e que essas
imperfeições muitas vezes serão refletidas no mercado (e muito mais no governo,
setor cujos integrantes detêm o poder e não estão submetidos à
concorrência). Porém, o livre mercado é o único arranjo que possibilita a
cada indivíduo agir de acordo com sua melhor moral e ser recompensado por isso,
ao passo que o estatismo e a abolição da concorrência é o arranjo que premia
(ou não pune) os imorais e desleixados.
Nenhum
defensor do livre mercado nega a existência de empreendedores salafrários; nós
apenas acreditamos — e para isto baseamo-nos na sólida teoria econômica — que,
quanto mais livre e concorrencial for o mercado, mais restritas serão as
chances de sucesso de vigaristas, e mais honestas as pessoas serão forçadas a
se manter. E elas terão de ser honestas não por benevolência ou moral
religiosa, mas sim por puro temor de que, uma vez descobertas suas trapaças,
elas serão devoradas pela concorrência, podendo nunca mais recuperar sua fatia
de mercado e indo a uma irrecuperável falência.
Por
outro lado, quanto maior for a regulamentação estatal sobre um setor, mais
incentivos existirão para a corrupção, para o suborno, para os favorecimentos e
para os conchavos. Em vez de se concentrar em oferecer bons serviços e
superar seus concorrentes no mercado, as empresas mais poderosas poderão
simplesmente se acertar com os burocratas responsáveis pelas regulamentações,
oferecendo favores e, em troca, recebendo agrados como restrições e vigilâncias
mais apertadas para a concorrência.
Não
há absolutamente nenhum motivo para crer que homens dotados com o poder da
coerção — como são os políticos e os empresários que atuam em um mercado
fechado pelo governo — irão se comportar mais moralmente do que as pessoas em
um ambiente de livre concorrência.
Por
isso, o livre mercado é a única opção moral concebível.
Leonard Read foi o fundador do
instituto Foundation for Economic Education --
o primeiro moderno think tank libertário dos EUA -- e foi amplamente
responsável pelo renascimento da tradição liberal no pós-guerra.
A primeira vista, imaginar como o livre mercado faria
funcionar um setor até então estatizado é difícil. É como tentar
explicar para um povo que sempre viveu na escuridão como as coisas seriam caso
houvesse luz.
"Se o governo tivesse o monopólio da fabricação de
sapatos e fosse o dono de todas as revendedoras, como será que a maioria das
pessoas iria reagir a quem advogasse que o governo saísse do setor de calçados
e o abrisse para empresas privadas? Sem dúvida nenhuma as pessoas iriam bradar:
"Como assim? Você não quer os pobres, usem sapatos!"
E quem iria fornecer sapatos ao povo se o governo
saísse do setor? Quantas marcas existiriam? Qual material elas iriam
usar? Não seria necessário haver regulamentação da indústria de calçados
para garantir que o produto seja confiável? Troque a expressão
"fabricação de sapatos" por qualquer outra e o raciocínio continua
idêntico.
Homens e mulheres praticando trocas livres e voluntárias
(isso se chama livre mercado) descobriram como entregar vários barris de
petróleo do Golfo Pérsico ao oeste americano — meia volta ao mundo — por menos
do que o governo cobra para entregar uma carta de 50 gramas ao outro lado da
rua!
No entanto, esses e tantos outros fenômenos rotineiros que o
livre mercado nos proporciona ainda não são capazes de convencer a maioria das
pessoas de que "os Correios" poderiam ficar a cargo da livre
concorrência sem que isso causasse sofrimento aos usuários. Pagina Reflexões da Direita
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Suponha que o governo federal, desde seu surgimento, tenha decretado
uma lei ordenando que todos, desde o nascimento até a maioridade, recebam
sapatos e meias "gratuitamente" do governo federal. Imagine que um de
nossos contemporâneos — alguém que acredite nas maravilhas que podem ser
alcançadas quando as pessoas são livres para empreender — dissesse: "Não
creio que dar meias e sapatos para as crianças deveria ser uma responsabilidade
do governo. Isso deveria ser uma responsabilidade das famílias. Tal
atividade seria muito mais adequadamente efetuada pelo livre mercado".
Quais seriam as reações a essa declaração? "Ah,
mas aí você traria sofrimento para as crianças pobres, que ficariam
completamente descalças!"
No entanto, neste exemplo, como se trata de uma atividade que
ainda não foi estatizada, somos capazes de mostrar que as crianças pobres estão
mais bem calçadas naqueles países em que sapatos e meias são de
responsabilidade da família do que naqueles países em que sapatos e meias são
responsabilidade do governo. Somos capazes de demonstrar que as crianças
pobres estão mais bem calçadas em países que são mais livres do que em países
que são menos livres. Pagina Reflexões da Direita
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Livre mercado
significa transações voluntárias. Livre mercado não tolera protecionismo,
subsídios e favores especiais concedidos por aqueles que estão no poder.
Por isso, o livre mercado é, em sua essência, contra a coerção, o roubo e todos
os outros métodos anti-mercado criados por governos para privilegiar alguns
poucos poderosos em detrimento de todo o resto. O livre mercado é o único
arranjo que permite que qualquer indivíduo possa concorrer em qualquer área da
economia (mas que não dá garantia nenhuma de sucesso). O livre mercado,
por fim, permite que as pessoas ajam moralmente porque eles são livres para
agir moralmente. Pagina Reflexões da Direita
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Nenhum defensor do
livre mercado nega a existência de empreendedores salafrários; nós apenas
acreditamos que, quanto mais livre e concorrencial for o mercado, mais restritas
serão as chances de sucesso de vigaristas, e mais honestas as pessoas serão
forçadas a se manter. E elas terão de ser honestas não por benevolência
ou moral religiosa, mas sim por puro temor de que, uma vez descobertas suas
trapaças, elas serão devoradas pela concorrência, podendo nunca mais recuperar
sua fatia de mercado e indo a uma irrecuperável falência. Pagina Reflexões da Direita
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Quanto maior for a regulamentação estatal sobre um
setor, mais incentivos existirão para a corrupção, para o suborno, para os favorecimentos e para os conchavos. Em
vez de se concentrar em oferecer bons serviços e superar seus concorrentes no
mercado, as empresas mais poderosas poderão simplesmente se acertar com os burocratas
responsáveis pelas regulamentações,
oferecendo favores e, em troca, recebendo agrados como restrições e vigilâncias mais
apertadas para a concorrência.
Não há absolutamente nenhum motivo
para crer que homens dotados com o poder da coerção — como são os políticos e
os empresários que atuam em um mercado fechado pelo governo — irão se comportar
mais moralmente do que as pessoas em um ambiente
de livre concorrência.
Por
isso, o livre mercado é a única opção moral concebível. Pagina Reflexões da Direita
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